Tela Quente

Um estudo feito em 1987 por Josh Mcdowell e Dr. Norm Wakefield já apontava que, na era anterior à internet, a criança pré-escolar passava 20 horas por semana assistindo televisão; já um universitário gastava 18 horas por semana em sala de aula para obter seu diploma de bacharel. A única atividade que superava o engajamento dos pequenos com a telona era… dormir. O que isso nos diz sobre nossas necessidades básicas?

Neste momento de isolamento social, a suspensão das atividades escolares e extracurriculares de suporte estão trazendo um grande desafio aos pais e educadores do mundo: manter crianças e jovens ocupados de maneira produtiva. Neste contexto, navegar pela rede social acaba tendo um enorme atrativo para eles, na medida em que as interações ocorrem quase que simultaneamente, suprindo, de forma incompleta e distorcida, a necessidade do contato humano.

Mesmo que um indivíduo não reconheça a interação social como algo importante, ela o é. Interagir com as pessoas de forma saudável molda o caráter, refina a empatia, traz requinte à resolução de problemas e conflitos, abre espaço para novas ideias, fortalece o indivíduo como Ser único, diferenciado e favorece o desenvolvimento de recursos próprios para lidar com este EU, inserido na cultura que o rodeia. Também possibilita o alcance dos sonhos e traz bem-estar, diminui a solidão e aumenta a tolerância.

Nenhum destes elementos presentes em uma personalidade bem-ajustada é alcançado ou construído pela via virtual. Mídia não é babá. Os valores que ela traz deveriam ser pessoais e intransferíveis, mas, ao serem repetidos dúzias de vezes em um espaço de tempo muito curto (como numa maratona de vídeos formatados no mesmo molde, por exemplo), tornam-se modelos que parecem reais, concretos, válidos como regra. Tais vivências, que são do outro mas que passam a se acoplar ao repertório da criança, roubam o espaço das relações familiares ou amicais. Perdem-se sutilezas, análises ponderadas e neutras, que dão lugar a certezas absolutas, radicalismos, inflexões e mimetismo imperfeito, idealização e platonismo. O jovem que passa a idolatrar este ou aquele influencer nutre sentimentos de admiração e cumplicidade, que são puramente baseados em construtos da realidade. Seus contextos são, no mínimo, tendenciosos.

A pessoa em formação, bombardeada por tantas ideias que não lhe pertencem de fato e que não encaixam de maneira orgânica com sua realidade, vai perdendo a necessidade de estabelecer intimidade e relações com significado real. Tudo passa a ser superficial, a cura para a solidão dá lugar ao exercício de um julgamento feito na ponta dos dedos em um milissegundo nos aplicativos de relacionamento, não há mais segundas chances para si ou para outrem, acabou-se a possibilidade de mergulhar no diferente que lhe cabe e aceitar-se. A curiosidade pelo distante e pelo sonho fica esvaziada e etérea, com base na pura concretude do que se pode viver aqui e agora, uma batalha física e mental para fazer parte do percentil 99 dos privilegiados, o que, quando não é possível, suscita sentimentos de menos-valia, inaptidão e impossibilidade de continuar vivendo “o martírio do não-ser”. O Ser que só quer Ter nem mesmo percebe o quão fútil e pedante está se tornando, repetindo um modelo no qual não se incluiu por participação, mas por Like, e logo, seu desprezo pelo mundo vai, inevitavelmente, recair sobre si mesmo.

Neste leque de influências e impressões que tais universos virtuais oferecem, a sexualidade dos nossos jovens e adolescentes também é atingida, já que ela está no centro da nossa existência humana. Na rede social, é cada vez mais perceptível a valorização do sexo casual, no qual o gozo pessoal e a vivência da própria fantasia são a prioridade, sendo o outro quase que um objeto; uma bandeira muito diferente do amor livre, em que ambas as partes se respeitam e se querem bem, sem a necessidade de um contrato. Um jovem sexualmente bem-orientado sobre suas escolhas terá, com certeza, uma apropriação satisfatória na sua tomada de decisões e planejamento de vida.

A mídia não só distorce a vivência da sexualidade saudável, como também cultiva sentimentos de desajuste e outros padrões surreais de aparência e comportamento, como beleza arquetípica e muitas vezes inalcançável diante da carnalidade de cada biotipo. Além disso, algumas tribos têm criado rituais e padrões de pertencimento que são perigosos, como jogos de asfixia, desafios sexuais e ou físicos de risco, além da valorização de estilos pessoais que nem sempre condizem com sua essência, mas os quais os jovens acatam para não se sentirem à deriva. Você, pai, pode e DEVE ser modelo, nossos filhos têm o direito de saber que a perfeição é um mito, que a verdadeira beleza deve ser trabalhada no nosso interior. Filmes, música, televisão, YouTube, novelas, redes sociais conversam com seus filhos e dizem o contrário, a tela ferve de emoções. E você, diz o quê?

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Alessia Castro

Coach com ênfase em emagrecimento e Master Coach com especialização em Programação Neurolínguistica (PNL), certificada pela Sociedade Internacional do Mindset. Enfermeira da Saúde Mental, cuja história de vida favoreceu um olhar empático e afiado acerca da natureza humana, promove abordagens holísticas e práticas integrativas na sua metodologia. Promove acolhimento a crianças em risco desenvolvimental, realiza orientação às suas famílias e garante seu direcionamento, transmutando seu aprendizado em Coaching para despertar o potencial pessoal, de acordo com cada realidade.

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Post Author: Alessia Castro

Coach com ênfase em emagrecimento e Master Coach com especialização em Programação Neurolínguistica (PNL), certificada pela Sociedade Internacional do Mindset. Enfermeira da Saúde Mental, cuja história de vida favoreceu um olhar empático e afiado acerca da natureza humana, promove abordagens holísticas e práticas integrativas na sua metodologia. Promove acolhimento a crianças em risco desenvolvimental, realiza orientação às suas famílias e garante seu direcionamento, transmutando seu aprendizado em Coaching para despertar o potencial pessoal, de acordo com cada realidade.

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