Chile, cajon del maipo

Remédio para dor

Há tempos penso em quanto seria magnífico fazer uma caminhada de longa duração, sem sentir nenhum tipo de dor.

Sim, nenhuma dor! Nem nos joelhos, nem nos dedinhos, nem na lombar, apenas andar por quilômetros e chegar onde quero.

Não sentir a meia do pé enroscando na unha que acabou de quebrar na descida do morro. Não pensar no tamanho das bolhas que estarão em cada calcanhar quando tirar a bota, mesmo sendo aquela velha bota de trilha que já usei algumas vezes, mas que não laceia nunca!

Não pensar em quantas picadas de insetos já levei (sabe-se lá se foi algum terrivelmente venenoso) e lembrar só depois… que também não passei protetor solar nas orelhas e isso não vai me deixar dormir por alguns dias!

Imagino subir um monte, de preferência o Monte Roraima. Uma expedição de nove dias, caminhando sem parar, sendo as últimas quatro horas de ataque ao cume, em único lampejo! Ah, eu já sonhei sim em realizar essa epopeia sem sequer tremer nas bases!

Interessante, não é? Afinal, o que nos faz muitas vezes desistir é a falta de coragem ou o medo da dor, porque vai doer, qualquer jornada dói. Mesmo se preparando para ela!

Contudo, me disseram que se fosse assim, sem as dores e seus respectivos efeitos colaterais, eu também não poderia sentir os demais benefícios da tal longa caminhada, como o vento batendo no rosto, o respingo da água da chuva que tem nas folhas das árvores, o cheiro do mato virgem e da terra molhada ou até mesmo, não poderia ouvir os sons da floresta, desde os mais suaves até os mais assustadores. Se realmente isso pudesse ser assim, eu não sentiria nada: nem bom, nem ruim.

Fácil, rápido e sem gosto! Sem desconforto algum!

Sem pensar muito, decidi que prefiro as dores de uma longa jornada.

As dores no joelho que tanto gosto de sentir, porque elas traduzem o resultado da emoção do “chegar lá”. Os músculos trêmulos após o esforço intenso de uma “escalaminhada”.  O enjoo livre quando se está à altura vertiginosa ou à beira do próximo precipício. O medo pré-histórico de ser devorado por uma onça ou uma queixada e não saber subir numa árvore. A sensação de se jogar e ver o que vai acontecer quando os amigos gritam: “Pode vir que essa água dá pé”.

Eu que não sei nadar e sempre usei colete, penso que esse negócio de que a água está na altura do ombro é pura ilusão, mas a gente acaba confiando e vai! E é isso! Exatamente o que faz ter graça, o que faz valer a pena e ser uma jornada de verdade, não flutuante e sim uma jornada com os pés bem fincados no chão!

O que se extrai no final é que a recompensa não tem narrativa. Só quem foi, quem fez, quem se curou de uma longa trilha sabe como é.

Não é como nas propagandas.

E a minha e a sua realidade são as que têm dor. Seja uma dor boa ou ruim.

Em nossos dias, o tempo virou ouro. As pessoas procuram fazer as coisas de forma resumida. Gastar tempo em uma longa jornada pode parecer demais. Temos que fazer rápido, terminar rápido e mostrar o resultado rapidamente também. Tudo efêmero!

Nesse ponto, faço uma comparação com o que Zygmunt Bauman costumava dizer em suas palestras: “Hoje os relacionamentos escorrem por entre os dedos”. Sim, parece que tudo é líquido!

Para aprendermos os sabores e dissabores não tem como apressar certas coisas. Não tem como tirar a dor. Mas ela pode ser saborosa, pode ser o tempero que está faltando na vida, aquela pitada que vai deixar o prato surpreendente.

Tem como usar a dor para algo bom? Sim! Se ela não for abreviada, sempre será uma convidada ilustre que vai lavar a louça quando todo mundo for embora!

Por mais jornadas longas a todos nós!

p.s.: não esqueçam daquele remedinho que tem cheiro de menta para passar no joelho à noite!

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Elisabete Nanni

Coach, formada pela Sociedade Internacional do Mindset; Formada e pós-graduada em Publicidade e Marketing pela Fundação Cásper Líbero. Atuo na área de Marketing há mais de 18 anos, com experiência em planejamento estratégico, comunicação e gestão de marca. Trabalhei em grandes empresas e atualmente sou consultora de marketing em uma indústria do segmento de commodities. Tenho apreço pela redação publicitária, já atuei como, inclusive. E por ter esta habilidade, sempre escrevi crônicas e contos. Sou apaixonada por trilhas, gatos, aviões e letras, mas me dou bem com números também! Meu objetivo é compartilhar reflexões que inspirem!

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Post Author: Elisabete Nanni

Coach, formada pela Sociedade Internacional do Mindset; Formada e pós-graduada em Publicidade e Marketing pela Fundação Cásper Líbero. Atuo na área de Marketing há mais de 18 anos, com experiência em planejamento estratégico, comunicação e gestão de marca. Trabalhei em grandes empresas e atualmente sou consultora de marketing em uma indústria do segmento de commodities. Tenho apreço pela redação publicitária, já atuei como, inclusive. E por ter esta habilidade, sempre escrevi crônicas e contos. Sou apaixonada por trilhas, gatos, aviões e letras, mas me dou bem com números também! Meu objetivo é compartilhar reflexões que inspirem!

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